cheio de nada
quando o nada enche meu peito
sinto saudades dos teus risos
e os olhares furtivos, cúmplices
são agora etéreos
fico desalento...
DICIONÁRIO DE PEDRAS
Há dias em que palavras são esculpidas
forjadas a marteladas e dor
em mármore gélido, toma forma, surra o ar...
de repente, ao relento, caem
soterram como uma chuva fina e prateda
pranteadas... viram tormenta.
meu tormento!
e molham nossos corações...
porém, entre raios e ventanias
sempre a certeza me acompanha:
meu coração molda carinhos e amores e beijinhos...
revés de outros, a espalhar desamores e tristezas
dou de ombros...
e assim seria a verdade, mas se assim fosse, creio
o tédio esculpiria sobre nós cascas atrozes
e nossas veias seriam varizes, doídas e corroídas...
inflamadas... a gangrena tomaria nossos seres
os sonhos seriam levados ao longe...
e distante de nós, cedo amputados
ceifados os sorrisos...
e todas as vidas nestes extremos vazios
o nada
chegando de mansinho ao coração
o podre tateando, a nos dominar...
e enfim
no fim de tudo
ao apagar a última luz de esperança
como o farol que guia o marinheiro solitário
fico à deriva
espero que o molde da vida
o coração moldado em amor
supere a dureza das palavras esculpidas
e do mármore frio a lhe dar vida
dos gestos mortificantes do abandono
do silêncio
nasça uma nova vida
viva
vívida em amores
quente.
e a vida, nova
ilumine o caminho que escolhermos percorrer
como um farol a iluminar a tripulação, juntos...
e o marinheiro não mais estará só...
lado a lado, ombro a ombro...
ou em raias longínquas
eternamente ligadas àquele coração moldado
amor eterno
amor materno
eterno terno amor...